Quando uma geração cresce sem enxergar o trabalho invisível por trás da tecnologia

A geração millenial viveu uma revolução tecnológica única. Na infância tiveram telefones fixos, fita cassete, agenda de papel e brincadeiras de rua. Ainda na adolescência, vislumbraram os primeiros avanços da internet discada com moldem e fio, trambolhos e computadores pessoais com 16 mb de memória RAM. Em poucos anos, a internet logo transformou-se em conexão permanente; mapas de papel deram espaço ao GPS e aplicativos, e as gigantescas coleções de enciclopédia tornaram-se um peso para aqueles que, poucos anos antes, acreditavam estar investindo em um conhecimento eterno e imutável. 

Tudo isso parece ter acontecido há séculos, mas estamos falando dos anos 90. Cada avanço tecnológico ajudou a reduzir etapas, eliminar barreiras e aproximar as pessoas da informação, mas havia um elemento em comum: ainda era necessário aprender a procurar.

Dando um salto para 2026, os jovens crescem — e ironicamente, os adultos também — em um cenário completamente diferente. Em vez de pesquisar, conversamos com sistemas capazes de organizar informações, resumir documentos, gerar imagens, escrever textos e responder perguntas em poucos segundos. A tecnologia deixou de apenas oferecer acesso à informação ou uma forma de comunicação para participar ativamente da construção das respostas. 

Essa mudança parece sutil, mas representa uma transformação importante na forma como as pessoas tomam decisões. Seja no trabalho, dentro de um escritório, de uma multinacional, ou até na sala de aula quando um aluno pensa que o professor não faz ideia que ele recorreu à IA para responder sua lição de casa.

 

Onde todo esse conhecimento é construído? 

A IA já ocupou um espaço no cotidiano de profissionais em todos os setores. Na saúde, auxilia na interpretação de exames e na organização de informações clínicas; no mercado financeiro, identifica padrões difíceis de perceber manualmente; no setor de seguros, contribui para análises mais consistentes, automatiza processos repetitivos e amplia a capacidade de interpretar grandes volumes de dados. Essa evolução levanta uma inquietante pergunta: “Quando uma resposta aparentemente pronta e automatizada, o que acontece com nossa capacidade de desenvolver pensamento crítico?”.

Quando se fala em automatização, é comum associá-la à execução automática de tarefas. A automação, porém, pode ir além quando combinada a dados, regras e modelos analíticos, também pode apoiar processos que exigem diferentes níveis de interpretação e decisão. Empresas de todo o mundo, inclusive no setor de seguros, buscam formas de agilizar processos por meio da tecnologia sem comprometer a qualidade dos dados e das informações utilizadas para tomar decisões. 

Um exemplo é o s.360, solução desenvolvida pela Samplemed a partir da necessidade de oferecer aos subscritores uma plataforma capaz de integrar diferentes canais e etapas da subscrição em um ecossistema unificado. Configurável por produto e com uma interface que dispensa programação, cada jornada pode ser desenhada de acordo com a estratégia da empresa. A automação acrescenta inteligência aos processos, permitindo que o sistema acompanhe o desempenho em tempo real, analise diferentes variáveis e apoie decisões com menor necessidade de intervenção manual; mas apenas a capacidade de agilizar e automatizar processos não é o que torna a solução, uma inovação.

Antes da tecnologia, foi necessário entender uma dor do mercado. Em um cenário em que cada vez mais informações estão disponíveis para serem utilizadas, o diferencial está justamente na capacidade de decidir como, quando e por que utilizá-las. É aí que surge o cuidado e o olhar humano por trás da tecnologia.

 

A resposta para tudo a apenas um clique 

Existe outro aspecto menos evidente nessa transformação em que quanto mais intuitiva a tecnologia se torna, menos percebemos o trabalho que existe por trás dela. Durante o uso de algum serviço ou plataformas digitais, os usuários tendem a não pensar na quantidade de profissionais envolvidos para que uma experiência do cotidiano pareça simples. Desenvolvedores, especialistas em dados, pesquisadores, designers, médicos, engenheiros, subscritores e analistas trabalham durante anos para que cada decisão dentro do s.360 possa acontecer em poucos segundos.

Essa lógica também está presente em áreas especializadas. O s.360 reúne módulos e modelos preditivos que utilizam IA, apoiados por décadas de conhecimento técnico, critérios bem definidos, qualidade dos dados e processos cuidadosamente estruturados. A tecnologia acelera a análise, mas não substitui a experiência acumulada que dá sentido às decisões.

Quando um processo funciona de maneira quase invisível, existe o risco de acreditar que ele sempre foi simples. A mesma sensação pode ocorrer com a própria inteligência artificial. Ao receber uma resposta pronta, muitas vezes esquecemos que ela é resultado de modelos treinados com enormes volumes de informação, construídos por milhares de pessoas e revisados constantemente para reduzir erros e inconsistências. Essa percepção se torna ainda mais relevante em setores que lidam com vidas, patrimônio e confiança. Decisões importantes não podem depender apenas da velocidade, pois exigem contexto tanto quanto a capacidade de interpretar nuances que nem sempre aparecem em um conjunto de dados.

A história da tecnologia mostra que cada inovação bem-sucedida não eliminou a importância do conhecimento. Se uma geração de adultos também está apenas aprendendo a conviver com a inteligência artificial, testando seus limites e descobrindo suas possibilidades pela primeira vez, como esse conhecimento será transmitido para uma geração que crescerá acreditando que a IA sempre irá entregar tudo pronto?

Cabe às grandes empresas, e também cada um de nós que entende do mercado, o desafio de ensinar as pessoas — jovens e adultos — a utilizarem a IA de maneira responsável. Nenhuma tecnologia deveria tornar invisível o conhecimento e as pessoas que tornam aquela resposta possível.

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Matéria originalmente publicada na Revista Segurador Brasil | Edição 206, setembro de 2026.
Escrita por Nícolas Eroles.

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