Desacelerar não é parar: consciência, rotina e cuidado em tempos de excesso

Assimile a cena: você acorda e, antes mesmo de sair da cama, checa os e-mails no celular. O WhatsApp já começa a apitar com demandas do trabalho; depois o Instagram com vídeos e reels daquele parente que sempre o inclui em tudo; seu cônjuge envia a lista de compras no mercado; o relógio marca o horário de buscar os filhos na escola, e no intervalo você responde um amigo que vem enfrentando um momento difícil.

É hora de voltar para casa e usar o tempo que sobrou para todas as demais tarefas. Depois que as crianças foram dormir, se o cansaço não vencer antes, talvez tenha sobrado disposição para assistir aos primeiros 20 minutos de um filme. Quando o dia termina, o tempo de tela no celular facilmente ultrapassa as cinco horas de uso.

Estar disponível o tempo todo também é exaustivo.

Se não tiver cochilado com o controle caindo da mão, há uma história que serve como reflexão e um contraponto delicado àqueles que não conseguem deixar de ter uma rotina acelerada. Perfect Days (Dias Perfeitos, 2023), dirigido por Wim Wenders e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, acompanha a rotina simples e repetitiva de Hirayama, um homem que limpa banheiros públicos em Tóquio.

Não há grandes reviravoltas durante suas mais de 2 horas de duração, nem uma busca explícita pela felicidade. Hirayama acorda, trabalha, almoça, fotografa árvores, ouve músicas em fitas cassete e dorme. No dia seguinte, tudo começa novamente.

Porém, tal repetição não significa necessariamente viver com plenitude. Conforme o espectador conhece um pouco mais sobre a vida do protagonista, se tiver prestado atenção, é possível notar que aquela rotina organizada tão minuciosamente também é uma forma de esconder o que ele não consegue (ou não quer) colocar em palavras. Sua solidão, as relações interrompidas, lembranças, conflitos familiares... uma rotina pode até nos ajudar a encontrar equilíbrio, mas também pode esconder os problemas que não desejamos encarar.

E é justamente nesse espaço que o conceito de mindfulness ganha outro significado.

Mindfulness, afinal, o que é?

Traduzido como “atenção plena”, mindfulness está relacionado à capacidade de direcionar a atenção para o momento presente, reconhecendo os próprios sentimentos, pensamentos e emoções sem tentar julgá-los ou afastá-los. Não significa desconectar-se do mundo ou buscar uma forma de eliminar o estresse, muito menos transformar uma dificuldade em pensamento positivo.

Assimile outra cena: você foi dormir cedo, mas na segunda-feira já está cansado assim que acorda. As preocupações começam a ocupar espaço e seus hobbies que antes traziam prazer deixaram de fazer sentido. Você passa a se afastar dos amigos sob o pretexto de que sua energia está sempre baixa. Essa breve descrição deve ter soado familiar para qualquer um que já tenha sofrido de depressão ou burnout.

A saúde moderna vem prestando cada vez mais atenção em tudo que acontece dentro e fora de nós: nos padrões físicos, emocionais, comportamentais. Sono, alimentação, atividade física, estresse, relações sociais, comportamento e saúde emocionalfazem parte de uma mesma equação. Prevenção também significa observar mudanças, compreender hábitos e reconhecer os sinais antes que eles se transformem em problemas maiores.

Um olhar atento para o todo

Em uma sociedade ocupada demais tentando produzir e estar sempre disponível, prestar atenção ao que acontece dentro de nós já é uma tarefa difícil por si só. Vivemos um momento em que é difícil desgrudar os olhos do celular. Para algumas pessoas, passar duas horas sem verificar uma notificação durante um filme já é uma tarefa árdua (por isso destacamos alguns trechos para aqueles que sentem a necessidade de ler tudo mais depressa).

A sensação é de que o tempo encurtou, enquanto as demandas se multiplicaram. Queremos estar presentes para as pessoas ao redor, mas a cobrança de estarmos disponíveis o tempo todo também esgota quando mais ninguém parece prestar a mesma atenção em você.

Então como desacelerar? Quando começar? Devo colocar como meta para janeiro do ano que vem?

Experimente começar com uma caminhada no parque.
Na próxima vez que se encontrar com um amigo para almoçar, não deixe o celular sobre a mesa.
Durma um pouco mais cedo, ou simplesmente reconheça que hoje não está bem.
Amanhã será um dia novo para tentar iniciar aquele projeto estacionado.

Essas pequenas formas de cuidado são tão importantes quanto uma alimentação equilibrada ou praticar atividades físicas. Assim como em um processo terapêutico, perceber o que deixou de funcionar é o primeiro passo para entender o que precisa mudar.

A tecnologia também pode participar dessa jornada de prevenção. Plataformas de saúde digital e ferramentas de análise de dados ajudam a organizar informações, identificar padrões e ampliar a compreensão sobre diferentes aspectos da saúde. No setor de seguros, essa capacidade abre espaço para modelos de subscrição que não olham apenas para um dado isolado, mas procuram compreender o contexto de cada pessoa.

Sair de uma visão puramente reativa para uma perspectiva que valoriza acompanhamento e prevenção é uma mudança importante, ainda que tecnologia nenhuma substitua a consciência sobre si mesmo.

Em busca do “Dia Perfeito”

Perfect Days não termina ensinando como construir uma vida perfeita, porque essa nem é a intenção. Hirayama encontra significado em pequenas coisas, mas continua carregando aquilo que não resolveu. Quando a tela se apaga e os créditos sobem, a reflexão que fica é que cuidar da saúde mental não significa buscar dias perfeitos, e sim, que haverão dias bons, dias difíceis, dias em que precisamos de companhia, e momentos em que precisamos apenas desacelerar.

Quando se fala em saúde mental, o convite mais importante é aprender a olhar para si mesmo enquanto ainda existe tempo para cuidar. E para cuidar da saúde, não deveríamos começar somente quando ficamos doentes ou alguma coisa deixa de funcionar, porque precisamos estar presentes o suficiente para perceber quando um dia requer um pouco de autocuidado.


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